terça-feira, 12 de maio de 2009

Dias de peixe

Ele puxa o ar com a sensação esperançosa de que tudo o que está dentro dele, que machuca e sufoca, vai ser sugado para um posterior sopro libertador. Esse momento inicial de sucção dura segundos, mas é uma sensação sólida avassaladora capaz de fazer o tempo parar
pra ver o anzol, que vai cortar seja qual for direção que se mova.

Depois de toda a solidez reunida dentro de si o peixe precisa, numa tentativa sagaz e corajosa, esquecer do golpe imperdoável do anzol e estar determinado a expulsá-lo, de encontro ao alívio triunfal.

Reune então todo o ar que lhe resta até não haver mais fôlego. Esse é um momento particular, pois toda a concentração do animal está no seu corpo, e é preciso muito controle pra esquecer que se está frágil, que é presa, e recuperar o vigor de quem era livre há muito pouco e só será feliz com este destino.

Chega a hora do sopro. Longo, determinado, forte, exorcista. Esse momento parece breve, isso porque logo é engolido pela sensação pulsante do anzol preso ao corpo do bicho. Parece vivo como sua carne e, por esta razão, por vezes, poderá lhe parecer íntimo.

Por isso talvez o peixe, depois te tantas tentativas, até se acostume com aquela presença sólida e estranha. O ruim é só porque dói sempre que ele respira.

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